Era
noite gelada de sopros cortantes quando um choro agudo vindo de uma viela
atravessava o silêncio imposto pela lua, aproximei do local mal iluminado e
nada vivo transitava por ali, pelo menos não aos meus olhos. Do outro lado
vinha cambaleando na tentativa de caminhar um sujeito sujo, exalando cheiro de
urina, a barba por fazer juntava-se com cabelos maltratados pela falta de banho. Vestia um sobretudo cinza todo furado, sua calça rasgada da coxa até o
traseiro, expulsava cores de rua fétida. Os pés cascudos e descalços tinham
enraizado a cor preta da sujeira, nas mãos com unhas podres uma garrafa
plástica com liquido de cheiro etílico. Ficou perplexo com o som que ouvia, mas
seguiu achando que havia bebido demais, chegou mais próximo a um amontoado de
sacos de lixo, estava com muita fome e se lamentava por essa ser a única forma
de sacia-la.
Ao
rasgar o primeiro saco de lixo atolou seus dedos em papel higiênico usado,
aquilo não o fez expressar nenhum enojamento, o que me levou a crer que era
corriqueira aquela situação. O choro me agoniava, mas não causava efeito algum
no rapaz. Entre um lixo e outro o sujeito de nome esquecido ergue contra a luz
mal projetada um saco preto, ao abrir, seus olhos espantados confirmaram a
estranheza da origem do som, se espantou pela sobrevivência e engoliu seco, era
um bebê. Estava enrolado em uma manta rala de cor azul.
Ainda
com riscos de sangue no corpo e um curativo porcamente feito, a criança com cor
de barro desistiu do choro e se calou. A fome do rapaz era enorme, assim como o
teor de álcool em seu sangue, surgiu o pensamento de que a criatura não faria
falta para ninguém se morresse, e talvez fosse uma refeição saborosa e com a
carne suculenta e macia, pensou por uns instantes enquanto analisava o pequeno com
expressão sofrida e cansada do dom da vida. De repente uma espécie de soco
psíquico o golpeou e reprimiu aquele pensamento para sempre.
Havia
desistido de caçar comida quando percebeu que alguns garotos desciam o escadão
ao lado, levantou com os joelhos molhados pelo chorume, envolveu a criança em
seus braços junto ao peito e apressou seus passos. No caminho sentiu um pouco
de medo, não acreditariam no que ele havia encontrado em sua busca por comida,
mas sabia que o pequeno não sobreviveria em meio a resto de comida e papel
higiênico usado. Decidiu deixa-lo na porta de alguma casa que pudesse ajudar.
Arquitetou tudo, o deixaria em frente a uma casa do bairro, apertaria a campainha
e correria para que ninguém o visse devolvendo o direito de viver para o bebê,
evitaria explicações. O neném acordou, mas chorava sem forças, pensou que tinha
de se apressar, não entendia a razão de jogar uma criatura sem defesas direto
para a morte, ele não venceria contra o simples nó da sacola.
Parou
em frente a uma casa de esquina, deduziu que ali vivia uma família decente com
bom coração. A casa castigada pelo tempo tinha cor verde, seu portão de ferro
tentava esboçar alguma proteção com suas pontas de lança afiadas. A caixa de papelão
que encontrou próximo do local serviu de berço confortável para o coitado que não
chorava mais, o mendigo não quis verificar se ainda estava vivo. Preparou-se
para partir, o acordar do sol estava próximo, tocou a campainha por três vezes
e partiu a passos largos em direção ao outro lado da calçada.
O ouvido que escutou o choro agudo, agora escutava o som do pneu derrapando no asfalto, era a morte lhe encontrando em forma de carro guiado por jovens, igualmente bêbados. A ironia vem em forma de destino, ao abrir o saco para retirar uma vida, o deixou aberto para que sua própria morte o preenchesse.
O ouvido que escutou o choro agudo, agora escutava o som do pneu derrapando no asfalto, era a morte lhe encontrando em forma de carro guiado por jovens, igualmente bêbados. A ironia vem em forma de destino, ao abrir o saco para retirar uma vida, o deixou aberto para que sua própria morte o preenchesse.